segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sem dor, sem rancor e sem Deus

É esse modo frio com o qual lidamos com a vida
que nos torna exatamente iguais um ao outro.
É esse desprezo que sem culpa espalhamos
que faz de nós elemento único e homogêneo.

Podem mil almas chorar dentro da minha alma
que meus olhos continuarão inteiramente secos.
Podem mil corpos quebrar dentro do meu corpo
que minhas pernas permanecerão sempre firmes.

Foi de almas e corpos mortos que minha força,
minha frieza e meu desprezo nasceram.
Pode o mundo me levar ao chão dezenas de vezes
que eu me levantarei forte, sem dor, sem rancor e sem Deus.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Como um porco apunhalado

Ela só queria que seus braços a apertassem 
colando cada pedaço quebrado,
mas aquele abraço vazio fez os pedaços 
voarem ao vento como dentes-de-leão!

Ela só queria que seus lábios a beijassem
calando cada grito de dor ao ar soado,
mas aquele beijo seco fez os gritos
soarem cortantes como diamante.

Ela só queria que seu peito batesse 
amando a cada pulsar como o dela amava,
mas aquele falso amor fez o peito
sangrar como um porco apunhalado.

Por sete dias eu deitei e chorei 
sobre a marca que seu corpo
deixou no meu lençol. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Breve explicação sobre ausências minhas

Eu preciso sempre de um meio termo,
preciso da melancolia na medida certa.
Se a tinta não desenha mais
a minha letra no papel,
então estou em um êxtase de alegria
ou em um poço fundo de tristezas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Óh, triste Saudade

Óh, triste Saudade!
Não sei bem de onde vens,
mas sei bem como tu és...

Tu és como essa noite que me atravessa o corpo,
assim como a estaca me atravessa o peito
cravada pela mão que me acariciou o seio.

Tu és como essa Lua que me perfura os olhos,
assim como a espada me perfura o ventre
fixada pelo punho que me segurou o peso.

O meu corpo nu e sangrento agora está envolto
entre o breu noturno e os olhos de São Jorge,
entre a espada e a estaca de madeira podre.

O meu corpo nu e sangrento agora está mofado
entre a escuridão finita e a aurora anunciante,
entre a morte e a morte, nada além, nada melhor.

Óh, triste Saudade...
O que fizeste de mim? 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Epitáfio

Jaz aqui um poema inacabado,
repousa os versos abortados
pela pausa do pulsar 
que fazia a pena no papel dançar!

Meu caro amigo Manuel

Óh, Bandeira!
por que me enches de melancolia
com teu carinho triste?

Só a ti entrego minha tristeza
mesmo que tu não a queira.

Sou a tua triste amiga
cuja boca, seios, ventre e a carne
foram desvirginados
por um Dom Juan já sem alma.

Sou a tua triste amiga
E tu és aquele que escreveste o meu presente!

terça-feira, 6 de março de 2012

O voo de Ícaro

Quando encontrei Ícaro pela ultima vez
era uma típica noite sépia de outono
a cor ainda permanecia presa no quente verão,
mas os ventos frios já anunciavam um inverno rigoroso.

O lugar, um antigo café de esquina
em uma pequenina cidade do interior paranaense
no qual os poetas ainda se encontravam como antes
para recitar seus versos, trocar idéias ou escrever o poema imortal.

Repetimos os velhos e bons hábitos
a moeda posta no conhecido jukebox
fazia tocar uma triste canção do the doors e
da mesa o vinho exalava seu cheiro doce sob nossas narinas.

Embora houvesse passado dez anos
a felicidade continuava superficial como antes
sorriamos, cantávamos e bebíamos alegremente,
mas ele continuava a ver a fumaça em meus olhos.

Contamos cada caminho que nossas vidas haviam tomado
os casamentos frustrados pela conveniente união
os amores abandonados pela paralisante falta de coragem
e os sonhos abandonados pela dor cortante da maturidade.

Naquela noite Ícaro quebrou suas asas
encontrou o ponto mais alto, do qual a queda seria fatal
rezou a um Deus no qual ele jamais acreditou
nem mesmo naquele momento - era vontade de blasfemar.

E então.. mergulhou no ar com asas quebradas
e o olhos esfumaçados, antes refletidos nos meus.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Soneto do adeus

A chuva caiu como lágrimas de Deus
na rua, no vidro, nos cabelos seus.
as nuvens tristes perderam a direção
com relâmpagos, afetos, alucinação.

Lhe beijei com lábios de adeus
a boca, o queixo, os olhos seus.
os cabelos afagados pelas mãos
finas e frias que não mais voltarão.

- Oh, querido amante que no meu corpo
magro e alvo percorreste ofegante
todos os caminhos à ti confiados.

Chegamos enfim ao fim da noite,
ao fim da chuva, ao fim do caso.
- Adeus, adeus..adeus meu feliz acaso.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Iel

Iel, meu melancólico anjo negro
de longas asas pratas e olhos amarelos,
sente falta do teu triste arcanjo.

Nas noites de tempestade
ele se debruça sobre meus ombros
e chora...chora lágrimas de chumbo.

Chumbo que pesa e esmaga
cada músculo, cada osso,
cada sorriso e cada esperança.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Eis me aqui a declarar amores

Dizer adeus quando
quis declarar amores
fez os olhos verdes da moça
virarem dois lagos salgados
de lágrimas cálidas.

Mas a paixão estava perdida
no emaranhado de recentes confusões.
A felicidade saiu de fininho
e devagar o seu lugar entregou
a um sentimento desconhecido.

Ela pensou sentir ciúme,
depois pensou odiá-lo,
quis ficar longe e seu olhar ela evitava
Num misto de arrependimento e medo
resolveu esquecer mais um dos seus amores.

"- Paradoxal", ela pensava. . .
colocar um fim logo quando
se descobre apaixonada,
mas qual outra solução havia de ter
para um caso complicado como aquele?

Estava decidida.. amou quem não devia
agora restava guardar só para ela,
no canto mais escuro do peito
aquele sentimento herege e traiçoeiro
disse a ele não mais querer,
mas o amou até morrer!